Encontro de Congadas - 31/07/2011

Congadas: cortejo de fé e devoção

Grupos de congo se reúnem em cortejo pelas ruas de São Jorge, mostrando a tradição centenária e a devoção aos santos

por Giovanna Beltrão e Vitor Santana

Foto: Anne Vilela

Encontro de Congos em São Jorge

As batidas dos tambores ecoavam pelas ruas de São Jorge e anunciavam o início ao cortejo das congadas pela vila. Uma das manifestações mais importantes e representativas do Encontro de Culturas desde sua primeira edição, a congada foi representada por quatro grupos, que se encontraram nas ruas da vila de São Jorge para apresentar ao público sua fé, seus santos e sua devoção. Em cortejo, os congadeiros foram cantando e tocando em direção à igreja, atraindo os turistas e moradores da cidade.

Na capela, os devotos se revezaram em orações e cânticos, prestando sua homenagem a São Jorge. Após as preces, uma pequena pausa para o jantar e todos seguiram para o palco, onde se apresentaram, mostrando sua cultura através das roupas, cantos, instrumentos, danças e adereços.

Congo da Irmandade de Santa Efigênia


Congo de Niquelândia. Foto: Anne Vilela

Participantes do Encontro de Culturas desde o primeiro ano, o Congo de Niquelândia é caracterizado pela roupa branca, saiote vermelho, lenço branco preso por uma fita vermelha e o penacho na cabeça, simbolizando os índios Avá-Canoeiro que existiam na região.

O grupo homenageia Santa Efigênia, uma santa negra que foi escravizada séculos atrás. A manifestação vem desde os escravos, passando de geração a geração. Valdivino Fernandes, capitão do terno de congo, explicou que, atualmente, não são apenas os negros que participam da festa, já que a santa não atende apenas a eles. Compostos por homens e mulheres, o Congo de Niquelândia se apresentam com ganzá, pandeiro, violão, bumbo e mini-onça, respondendo a versos entoados pelo capitão.

Conheça um pouco da tradição da Irmandade de Santa Efigênia




Congada de Monte Alegre


Congo de Monte Alegre. Foto: Anne Vilela

Quando o Congo de Niquelândia terminou sua apresentação, foi a vez da Congada de Monte Alegre fazer sua estreia no Encontro de Culturas. Os 12 congadeiros vestidos de branco, azul e vermelho, liderados pelo encarregado Mauro Ílson Francisco Régis, de 39 anos, logo se organizaram em duas filas. Enquanto o guia, Seu Manuel Quirino dos Santos, de 65 anos, puxava a cantoria em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, os demais o acompanhavam, batendo as pequenas varetas, que chamam de cambitos, uma contra a outra.

A Congada de Monte Alegre faz parte da Festa do Reinado, realizada todo dia 23 de julho na pequena cidade do interior de Goiás. Registros apontam que os festejos começaram há 273 anos, mas, no entanto, não se sabe como a festa foi criada. “A tradição mesmo eu não sei falar. Tem 25 anos que eu trabalho com eles, até mais que isso. Eu comecei a pular congada com eles eu tinha 17 anos. O parceiro que comandava nós era o Zé Xavier do Bonfim, ele faleceu. E antes dele falecer, quando ele adoeceu, ele passou pra mim tomar de conta. Então, eu não sei falar”, conta Mauro Ílson.

O guia Seu Manuel já pula congo há quase 40 anos. “Quando eu entrei nessa brincadeira eu devia ter uns 26 anos, pra quem já tá com 65, né?”, comentou. Homem simples e devoto, o congadeiro contou que já pensou em largar a congada várias vezes, devido às dificuldades que enfrentam. “Os que me ensinaram não existe mais nenhum. E eu tava quase parando, mas peço Nossa Senhora do Rosário para me dar saúde e força pra continuar. Eu continuo rodando com fé, que eu tenho fé mesmo. Já tava quase pedindo licença a Nossa Senhora do Rosário e pulando fora, mas ela me dá força e coragem e eu vou rompendo”, continuou.

A Festa do Reinado costuma atrair turistas para o município. Os festejos são organizados pelos festeiros, que ainda sorteiam o rei e a rainha a cada ano. Além disso, cavalaria, congada, escravos, damas e carruagens também integram a festa. “Primeiramente, nós arrumamos. Depois, os cavaleiros. A gente sai da minha casa e pega a sussa, que vai atrás de nós. Nós vamos pra rua pra procurar a rainha. Quando a gente acha o rei, para, ele sobe na carruagem e a gente continua procurando a rainha”, esclareceu Mauro.

O encarregado contou ainda que todas as vestimentas são escolhidas pela rainha. E, sendo assim, mudam a cada ano. Durante a festa ocorre também a distribuição de farofa e refrigerante na porta da igreja. E, logo após a Festa do Reinado, ocorre o Reinado da Cachaça, que seria a festa profana que segue o festejo religioso.

 
Terno de Moçambique de Fagundes

Terno de Moçambique de Perdões. Foto: Anne Vilela

Atravessando a multidão e subindo ao palco, veio o Moçambique de Fagundes, do Capitão Júlio Antônio. A tradição do povoado, que é distrito do município de Santo Antônio do Amparo, em Minas Gerais, mostra, através do congo, a devoção a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Os homens vestidos de branco e guiados por Seu Júlio mostram a força de sua fé por meio das batidas de seus pés no chão. O som se propaga pelas pantagongas amarradas em seus joelhos.

Enquanto Seu Júlio puxava os cantos, o alferes ia à frente, segurando a bandeira de Nossa Senhora que trazia os dizeres "Santa Maria Mãe de Deus" e o nome do povoado. Com um bastão, que tinha um lenço branco amarrado e um apito na mão, o Capitão Júlio Antônio vinha logo em seguida, puxando os companheiros e cantando. Em cima do palco, o veterano das congadas agradeceu ao Coordenador do Encontro de Culturas, Juliano Basso, e pediu proteção aos que ali estavam. “Pelo amor das misericórdias divinas, meu Deus, olhai por todo mundo que está aqui hoje. Abençoa a todos que estão aqui”, clamava com fé o Capitão.

A tradição do Moçambique está na família de Seu Júlio há muitas gerações, desde que o seu avô, que era comprador de escravos, formou o Terno de Congo ao se encantar pela dança que os negros faziam nas senzalas. Capitão há 40 anos, Seu Júlio conta que a tradição tem mais de 300 anos e nunca saiu de sua família.

Uma parte marcante do Terno de Moçambique, além da forte batida e das músicas que remetem à escravidão, é a instrumentação, composta por caixas, tambores e pantagongas, que são os chocalhos amarrados abaixo dos joelhos. Quando os versos se encerram, os dançadores batem os pés no chão fazendo com que os chocalhos produzam o som que caracteriza o Terno.

Veja um pouco da tradição do Terno de Moçambique




Catupé de Santa Efigênia


Catupé de Santa Efigênia de Catalão. Foto: Anne Vilela

A batida forte das caixas do Catupé de Santa Efigênia, do município de Catalão finalizou as apresentações desse encontro de congos. Fundado há quatro anos, as cores predominantes são o preto, presente na calça e no chapéu e o prata, cor da camisa usada por todos os devotos do grupo e fitas coloridas nos chapéus, simbolizando os mantos de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia. O grupo completo se apresenta com caixas, tarol, acordeão, pandeiros e bandeira. Saulo Junior, Capitão do Congo, explicou que os ternos começam a sair pela cidade no segundo final de semana de agosto: “A gente vai até o início de outubro. Aí quando é dia primeiro de outubro tem a alvorada, as novenas, no final das novenas tem o levantamento do mastro e depois, no decorrer de sábado, domingo e segunda aí é o forte das congadas, que reúne os grupos, todo mundo fardado...”, contou.

Assim como manda o costume em várias outras festas religiosas, o festeiro é o responsável pela organização e também pelos gastos da tradição, contando com a ajuda da Irmandade do Rosário e também da prefeitura. Ainda segundo o capitão do Catupé de Santa Efigênia, a tradição das congadas é muito forte dentro da comunidade: “Quando tá os ternos na rua, você olha e tem mãe com menininho lá mamando e tá fardado, entendeu? O menino tá lá custando a andar, tá brincando, aí a mãe vai tirar lá de dentro e ele chora e briga, não quer sair, então pra nós é muito difícil a tradição se perder com o tempo”, afirma Saulo.

Sempre com a bandeira de Nossa Senhora na frente, o grupo interagiu com o público, dando vivas aos participantes do encontro e também aos outros congadeiros. A estréia no Encontro de Culturas Tradicionais não intimidou o grupo que se apresentou com passos sincronizados e fortes batidas, tudo guiado pela voz do capitão Saulo.

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