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24/07/2007 22:07
Império Kalunga
Devoção ao Divino

por Alessandra Alves, da Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge

Noite de sábado, começa o "caminhamento" do Império Kalunga. Sob o toque da caixa, pandeiro, sanfona, triângulo e viola, segue o cortejo. Mais de 60 pessoas vindas de todas as regiões que compõem a Comunidade Quilombola do Sítio Histórico Kalunga acompanham a procissão.

Em direção a igreja eles atravessam a vila de São Jorge sob o barulho dos fogos de artifício que anunciam a passagem do grupo. A bandeira do Divino Espírito Santo é conduzida com orgulho e depositada aos pés do altar.

Marcelo Scaranari

Devoção e orgulho no altar da igreja

Todos se acomodam na pequena igreja, enquanto as rezadeiras se benzem em frente às imagens do Divino, de São Jorge e de Nossa Senhora Aparecida.  O sino toca avisando a todos que o Divino chegou. Neste momento, mulheres da comunidade, dedicadas à reza, iniciam a louvação.

Dona Natalina, 59 anos, é rezadeira desde os 10 anos de idade. "Para ser rezadeira a pessoa tem que ter o dom desde criança, aprender com a família. Eu mesma tenho o dom de rezar, desde criança já rezava em qualquer igreja ou altar", explica.

"Você que está chegando
Bem vindo, seja vem vindo
O pai eterno acolhe você aqui
No santuário na casa do pai"

Após um longo período de reza e muita devoção, é a vez de todos se benzerem em frente ao altar. Enquanto isso, as candeias começam a ser distribuídas e a fogueira preparada. Na festa kalunga, as candeias são feitas com varetas de taboca, com um preparado de algodão coberto com cera de abelha cuidadosamente colocado na ponta.

Dentro da tradição, o levantamento do mastro do Divino envolve sacrifício, fé e esperança. Com as candeias acesas, iluminando ainda mais a noite estrelada, eles dão início ao ritual de dar a volta na igreja.

Neusa Fontenelle, moradora da vila escolhida em 2006 como capitã do mastro, acompanhada pelo capitão kalunga, vai à frente do cortejo levando a bandeira vermelha com a imagem do Divino. "Eu tenho a maior admiração pelos kalunga. Quando me chamaram para capitã do mastro, fiquei emocionada. Pensei que seria a oportunidade de ajudar, de fazer alguma coisa por eles", emociona-se.

Marcelo Scaranari

Neusa, a capitã do mastro, leva a bandeira vermelha do Divino 

Dezenas de pessoas, com suas candeias, acompanham os capitães durante as três voltas ao redor da igreja. "Lá na comunidade a gente costuma dar três voltas na igreja também. É uma tradição muito antiga que vai passando de geração em geração. A gente vai cantando como uma procissão", resume Susiena de Aquino, 26 anos, que participa desse ritual desde criança.

"É um sacrifício que a gente faz, uma devoção ao Divino, a São Jorge e São Sebastião. Uma esperança que nós temos em louvor daquele santo pra fazer uma rogativa daqui para o outro ano", esclarece Dona Natalina.

É hora de colocar a bandeira no mastro. Os homens se dedicam a essa tarefa. Após se certificarem de que o símbolo da festa está bem posicionado, se reúnem para fixá-lo ao chão.

O trabalho e o esforço já começam a ser recompensados. Os foliões dão o toque da Sussa. Novo foguetório, a festa vai começar. Vinho e refrigerantes são servidos enquanto mulheres e crianças puxam a dança. "A Sussa é para agradecer o festeiro, e perguntar ao imperador: 'Quem é agora? Eu não sou'. Não se sabe ainda quem vai ser o próximo festeiro", conta Natalina.

No domingo, lá estão eles, novamente se preparando para sair em procissão. O rei aparece com sua coroa, acompanhado por um casal de anjos. As quatro varas que formam o quadro estão caprichosamente enfeitadas e mais uma vez os foliões dão o ritmo da procissão.

A bandeira do Divino vai à frente. Atrás, no quadro, estão posicionados ao lado do rei a espada do império, simbolizada por um facão e várias pessoas da comunidade. A folia anima a procissão. Pelas ruas de São Jorge, todos os olhares se voltam para a cena.

Mais uma vez em frente à igreja, os kalunga representam o império, festa tradicional da região. A benção é dada por meio de movimentos feitos com a bandeira e com a espada, denominados "venda". Segundo Dona Maria do Sérgio, 67 anos, as manobras tem o intuito de ajudar a Deus. "É para ficar uma coisa limpa, dar tudo certo. A bandeira é uma saudação para igreja e para o pessoal. O facão corta os males, aí fica bom".

Abre-se o quadro. Diante do altar as rezadeiras assumem sua função. Turistas e moradores se aproximam para presenciar o momento. Depois de expressarem sua devoção inicia-se a indicação dos mordomos, pessoas que no próximo ano irão contribuir com a organização da festa.

O cortejo se dirige à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge para o banquete. No local, uma mesa foi especialmente preparada para a ocasião. Biscoitos, bolos, refrigerantes e como não poderia deixar de ser, uma pinguinha, fazem parte do cardápio.

À espera estão representantes de várias etnias indígenas, que também participam do Encontro. A cena é no mínimo surpreendente. Índios e kalungas se confraternizam. Barriga cheia, é hora do forró. Os pares rodopiam pelo salão.

As expressões são de extrema satisfação. Perguntada sobre a festa, Dona Maria se anima, "Foi lindo. Aqui ainda está começando, a festa daqui é uma representação para o povo ver. De primeiro, no tempo dos mais velhos, não tinha império minha filha, só banquete e folia. Quando os mais velhos morreram, os novos acharam que o império era menos trabalhoso. Aí eles deram pra fazer a festa, assim como é hoje", explica.

A Comunidade Quilombola Kalunga inicia sempre no dia 12 de maio essa tradição. Durante a romaria, que dura cerca de uma semana, cada família se muda para um barraco nas proximidades da igreja. Neste período são realizadas novenas, o arremate da folia, o império e mais recentemente até um campeonato de futebol. 

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